Segunda-feira, 19 de abril de 2004

O ESTADO DE S.PAULO - CIDADES

Silvio Santos faz visita-surpresa ao Oficina
Empresário pede para conhecer projeto de núcleo cultural e sela paz com trupe teatral

JOTABÊ MEDEIROS

 

O empresário e apresentador Silvio Santos foi ao teatro. Chegou às 17 horas dirigindo seu próprio carro e foi recebido por um grupo de 40 atores e atrizes, que cantou para ele a Ave Maria. Depois, ele subiu ao balcão e, enquanto o elenco cantava, engatou uma conversa de uma hora e meia com o diretor da trupe, José Celso Martinez Correa.

O teatro que Silvio Santos visitou era o Oficina, ontem à tarde, no Bexiga.

A surpresa de sua visita era bastante justificável: o empresário poderia ser recebido ali com algo mais do que frieza, já que seu projeto de construção na área vizinha ao local de um complexo de lazer de 55 mil metros quadrados (um shopping de R$ 75 milhões) criou uma espécie de rivalidade com o diretor Zé Celso e seus bacantes. O encenador tem seus próprios planos para a região, a criação de um centro de formação cultural e artística.

"Nunca entrei nesse teatro porque achava pequeno", disse Silvio, espantado com as dimensões do local, projeto da arquiteta Lina Bo Bardi tombado pelo Condephaat, o patrimônio histórico estadual.

O encontro foi sugerido pelo próprio Silvio Santos, durante conversa telefônica com o senador Eduardo Suplicy (PT). "Eu liguei para ele para falar sobre o assunto e ele me disse que tinha lido uma carta bonita que tinha mexido com ele", disse Suplicy. Falaram então sobre marcar o encontro e o senador sugeriu que fosse hoje. "Mas ele disse que ia viajar e que seria bom no domingo", contou o senador, que também levou o filho Supla ao happening-trégua.

"Foi um milagre o que aconteceu, mas um milagre para o qual eu estava preparado, para o qual eu passei 25 anos me preparando", disse Zé Celso Martinez Correa, que citou a atriz Vivien Leigh no papel de Blanche Dubois, de Um Bonde Chamado Desejo, para materializar a cena. "Às vezes, Deus se mostra tão prontamente", disse “disse o diretor, repetindo uma frase dita por Vivien no filme.

"Deus esteve aqui, e foi fantástico. Me disseram que ele era um homem que só falava e a gente escutava, mas ele se mostrou um ouvinte paciente e maravilhoso", elogiou Zé Celso. A antiga desconfiança foi substituída por um diálogo franco. Silvio Santos, que confessou desconhecer o projeto, pediu para conhecer o plano de Zé Celso para a região e foi objetivo. Quis saber dos custos, e salientou que, dos projetos factíveis, "5% é sonho e 95% execução".

Correa rebateu dizendo que tem aliados fortes no seu projeto (que inclui a revitalização de pontos nevrálgicos do Bixiga, como o TBC, a Vila Itororó e o próprio entorno do Oficina). Um desses aliados é a cineasta e produtora Monique Gardenberg (de Benjamim), que se ofereceu para formatar o plano.

"Sei que dentro de você tem um louco", disse Zé Celso ao apresentador.

Silvio deu uma gargalhada, e o diretor emendou: "Você é um ator maravilhoso.

Quem me dera eu ter você em uma peça. Se nós nos aliássemos, seria uma coisa assombrosa".

O grupo Oficina continuava cantando, no que o diretor chama de "uma espécie de concentração mântrica". E explicou ao empresário que aquilo tudo era um velho sonho de Oswald de Andrade, que também se integrava à estética do próprio Silvio Santos. "Mesmo entre os empresários, há uma rejeição quanto à qualidade dele. Mas a Lina Bo Bardi, num artigo já antigo, dizia que a obra de Silvio era importantíssima, que ele trabalhava com a exclusão e deveria ser estudado na USP", continuou Correa.

Ao final do encontro, crianças que participam dos espetáculos do Oficina deram ao apresentador um exemplar de Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Enquanto os atores cantavam o Samba do Teatro Brasileiro, de Flávio Rangel, Silvio Santos embarcou no seu Lincoln e foi embora.


FOLHA ON LINE - ILUSTRADA

Silvio Santos encontra Zé Celso no teatro Oficina


Depois de mais de duas décadas de conflitos, o empresário e apresentador de TV Silvio Santos e o diretor José Celso Martinez Corrêa se reuniram ontem, no teatro Oficina, em São Paulo. Eles conversaram sobre projeto do shopping que o Grupo Silvio Santos pretende construir em terreno de sua propriedade em torno do teatro, no bairro do Bexiga.

"O encontro foi extraordinário, mágico, é uma coisa que há 25 anos eu sonho", afirmou o diretor, que pela primeira vez se avistou com o empresário.

Folha Imagem


José Celso Martinez e Silvio Santos reúnem-se no teatro Oficina

Da reunião também participaram o senador Eduardo Suplicy, acompanhado de seu filho, o cantor Supla, e o psicanalista Contardo Calligaris, colunista da Folha de S.Paulo.

O encontro foi intermediado por Suplicy, que telefonou ao empresário, dono da rede de TV SBT, na última sexta, um dia após a publicação, na Folha de S.Paulo, de coluna em que Contardo Calligaris propunha em carta aberta a Silvio Santos que ele conversasse com Zé Celso e fizesse uma visita ao teatro. Silvio Santos manifestou a Suplicy o interesse em conhecer o Oficina, e a reunião foi marcada.

O empresário chegou ao teatro desacompanhado, às 17h. Foi recebido por integrantes do grupo teatral, que cantaram músicas do espetáculo "O Homem 2".

Zé Celso contou um pouco da história do grupo e apresentou o teatro a Silvio Santos. Depois encaminharam-se para o mezanino do Oficina, onde Zé Celso detalhou seu projeto de construir um anfiteatro para grandes peças populares, espécie de "universidade popular do teatro".

O diretor teatral enfatizou não se opor a iniciativas de desenvolvimento do bairro do Bexiga e disse não ver contradições entre o projeto do Grupo Silvio Santos e a manutenção do Oficina. O grupo de Zé Celso entregou a Silvio Santos um projeto de expansão do teatro que prevê a utilização dos terrenos que o shopping e o centro de diversões ocupariam, numa tentativa de conciliar as duas propostas. O trabalho foi desenvolvido pela arquiteta Cristiane Cortilio. Silvio Santos afirmou que o levaria para sua equipe avaliar a viabilidade do projeto.

"Os Sertões" e água-de-coco

A reunião durou cerca de uma hora. O empresário tomou água-de-coco, recebeu uma edição de "Os Sertões", de Euclydes da Cunha, com dedicatória escrita pelo diretor, e deixou a promessa de que voltariam a se encontrar.

Ao final da visita, o grupo Oficina cantou para Silvio Santos samba dos anos 70 da escola carioca Vila Isabel cuja letra diz: "Eu sou o teatro brasileiro/Da vida o espelho verdadeiro". Silvio Santos escutou até o fim e foi acompanhado por aplausos do grupo até sua saída do teatro.

"Se nas suas próximas apresentações vocês cantarem com tanto carinho, terão o maior sucesso", declarou Silvio Santos.

"Ele achava que a disputa era exclusivamente pela preservação do teatro. Foi recebido pelo elenco todo, agradeceu e ficou impressionado", disse Zé Celso.

"Outra dimensão"

No final, o diretor fez uma avaliação positiva do encontro. "O Silvio veio sozinho, sem paranóia, chegou na hora, isso é importantíssimo. Estávamos nos preparando para recebê-lo de corpo aberto, de alma aberta. Fui caminhando com ele e mostrando os buracos que existem no fundo do teatro, e os atores ficaram o tempo todo se concentrando. Estou orgulhosíssimo, os atores conseguiram manter uma atmosfera zen, tântrica", disse ele.

Segundo Zé Celso, foi dito a Silvio Santos que o grupo pretende fazer um "teatro dedicado à cultura brasileira antropofágica, e que já estamos preparados para isso. Ele se surpreendeu. Quis saber quanto custa o projeto. E o convidei para atuar", contou. Para ele, "a partir de hoje, mudou a relação" com Silvio Santos.

"Vi nele uma pessoa de carne e osso e, por trás do homem em que existe só comércio, vi uma outra dimensão, muito contagiante, muito talentosa. Esse encontro pode ser uma revolução na cultura de São Paulo", disse.

Para o senador Suplicy, o encontro foi entre "duas pessoas de genialidade e talento". E considerou o episódio "uma experiência de "serendipity" [dom de fazer descobertas felizes, por acaso]".


FOLHA ON LINE - ILUSTRADA
Quinta-feira, 15 de abril de 2004

 

Carta aberta a Silvio Santos
CONTARDO CALLIGARIS


Caro Silvio Santos,
Confesso que não sou um espectador de "Todos contra Um". No passado, assisti ao "Show do Milhão" só duas ou três vezes. Nunca comprei um "carnê do Silvio".
Mas meus sogros, Heloísa e Valentim, gostam de você. E, como tenho um grande carinho por meus sogros, sou grato por todas as vezes que eles passaram bons momentos assistindo ao "show do Silvio".
No ano passado, quando surgiu o boato de que você estaria doente, uma senhora, minha conhecida, comentou: "Só o que faltava, não ter mais nem o Silvio". Em geral, minha turma é crítica e pensa que você distribui ilusões como a gente enfia balas nas mãos dos meninos nos faróis. Mas eu acho que há um grande mérito (seu mérito) em conseguir encarnar, para tantos brasileiros, um sentimento sem o qual é difícil viver: a esperança de que amanhã a gente tenha um pouco de sorte.
Por isso, permito-me a familiaridade desta carta.
Escrevo-lhe por uma história que você deve estar cansado de ouvir: o grupo que você lidera projeta um shopping center (ou um centro de convenções) na área do Bexiga em que surge o Teatro Oficina, dirigido por Zé Celso Martinez. Claro, ninguém contesta: o teatro é tombado, pois ele é um patrimônio insubstituível da cultura brasileira, tanto por sua arquitetura quanto pela companhia que ele abriga. Também imagino, embora eu não conheça o projeto em sua fase atual, que nenhum arquiteto se proporia a encapsular o Oficina num casulo de edifícios. Então, qual é o problema?
O problema, como você sabe, é o espaço ao redor do Oficina. É necessário um recuo suficiente para que a luz do dia e o sol atravessem livremente a parede de vidro que, com o teto retrátil, faz do Oficina esta raridade: uma sala de teatro aberta para o mundo. Além disso, no terreno ao lado e nos fundos do teatro, o projeto do Oficina prevê uma arena aberta e locais para atividades que vão além da produção de peças: um lugar de lazer e educação teatral para as crianças do Bexiga que freqüentam o Oficina, um centro de estudos etc.
Pouco importam os detalhes. Meu pedido é apenas este: que você se disponha a encontrar Zé Celso ou autorize seu arquiteto a encontrar Zé Celso. No diálogo, é óbvio que se manifestarão interesses contrastantes, mas poderia também surgir o desejo comum de construir algo que seja bom para o Bexiga, para São Paulo, para o Brasil e para o teatro.
Sobre o Oficina, você já deve saber tudo o que importa. Se não for o caso, outros poderão lhe dizer melhor do que eu. Mas nada vale a experiência. Aposto (sem consultar ninguém) que a companhia se disporia a recebê-lo para uma representação só para você, quem sabe um condensado das duas partes de "O Homem". Mas deixe que lhe conte uma história.
Eu fui uma criança bem-comportada, numa cidade ferida pela guerra, Milão, na Itália. Um pouco por medo de que encontrasse uma bomba não explodida nos escombros, um pouco por respeitabilidade burguesa, meus pais não queriam que brincasse na rua. Ia para a escola, estudava e brincava no meu quarto.
Era raro, mas acontecia duas ou três vezes por ano, que um circo visitasse a cidade. Quando era um circo grande, passava um Fiat 600 gritando pelo alto-falante: "De volta da mirabolante turnê que o levou aos quatro cantos do Universo, ainda fremente pelos aplausos das multidões de Londres, Paris e Istambul, está em Milão o grande circo Togni; crianças, tragam seus pais; elefantes, leões, tigres da Bessarábia [nunca soube se há mesmo tigres na Bessarábia], os trapezistas de Moscou que arriscam sua vida sem rede, o homem-bala de Praga, os cavalos da grande escola de Viena".
Eu, na verdade, preferia os circos pobres, que se instalavam perto de casa. Nesse caso, o alto-falante vinha na mão do palhaço que abria um pequeno desfile de saltimbancos, malabaristas, anões, mulher barbada, homem-serpente e um ou dois bichos, um macaco, um cavalo.
Insistia tanto que meus pais achavam graça e deixavam que eu fosse a mais de uma representação do mesmo circo. Nunca souberam que o espetáculo, para mim, era duplo. Certo, admirava os corpos magicamente bonitos em suas roupas furadas de paetê; comovia-me com o drama do pateta, vítima do clown branco; gritava quando a trapezista voava no céu. Mas, no intervalo e depois do espetáculo, gostava de passear, meio às escondidas, entre os reboques que serviam de casa ao povo do circo. Tinha cheiro de sopa caseira, de roupa lavada e de malhas suadas, risos, gritos de brigas, portas entreabertas que mostravam espelhos, maquiagens e panelas. As duas coisas juntas, o espetáculo e os bastidores, eram, para mim, uma única experiência: foi ali que aprendi para sempre, acho, que é possível sonhar sem deixar de gostar da vida concreta.
Ora, quando vou para o Oficina, sinto a mesma alegria de quando era dia de circo na cidade. Não freqüento os bastidores do teatro. Não é preciso, porque o Oficina é construído para que não haja muita diferença entre cena, platéia e bastidores e porque a magia de seus espetáculos é esta: transformar em teatro a fúria, a euforia, a miséria e a paixão da vida concreta.
Em suma, caro Silvio Santos, receba este escrito como se fosse a carta de uma criança que lhe pede ajuda para que nosso melhor circo continue e cresça.
Obrigado e um abraço,
Contardo

ccalligari@uol.com.br